Dear John (2006)

8 09 2010

A orelha de “Querido John” descreve o escritor Nicholas Sparks como “o autor do New York Times com mais de 13 títulos publicados e o único autor contemporâneo a emplacar, por mais de um ano, um romance na lista dos mais vendidos.” Uma descrição mais honesta diria “Nicholas Sparks é uma moça”. Uma descrição ainda mais honesta diria “Nicholas Sparks é uma moça com severo retardo mental”.

Nicholas Sparks, em foto recente.

A sinopse oficial revela que o livro trata de um amor fortemente influenciado pelo 11 de Setembro. O protagonista, John Tyree, é um militar que deve escolher entre a pátria e o amor de Savannah (Ou Savana. A edição nacional parece indecisa, já que a donzela muda de nome meia dúzia de vezes ao longo da obra.) Lynn Curtis. Interessante, não? Você provavelmente espera uma história cheia de mortes e dilemas morais. Com um pouco de sorte, talvez até uma história de soldado atormentado, que retorna incapaz de amar. Algo na linha dos filmes “Guerra ao Terror” ou “Entre Irmãos”. Mas o que você recebe na realidade? Uma edição da revista capricho com 280 páginas.

Mas nem tudo é feminilidade. Por exemplo, por um capítulo inteiro você vai ler sobre moedas. Pois é. Moedas. Fascinante, não? Em defesa de Sparks, o próprio autor reconhece que o tema é tão interessante quanto segurar um pêssego por 5 horas e meia no centro de Bangu. Pena que isso não o faz parar de falar no assunto. O objetivo, que fique claro, é fazer o leitor sentir simpatia pelo pai doente de John, que vive uma rotina entediante por portar a doença de Asperger. Bom, só porque sua rotina é miserável, não significa que minha leitura precisa ser também.

Mas obviamente não é o arco das moedas que transforma Nicholas Sparks numa moça. É a história de amor entre John e Savannah. Por intermináveis páginas os dois flertam e nada acontece. São encontros seguidos de encontros e nada acontece. Então o que John, como bom soldado, sujeito durão, faz? Rouba um beijo? Manda uma one liner e leva a garota pra cama, estilo James Bond? Não, diz “eu te amo”. Sei que é difícil ler isso e acreditar em mim, então aqui vai uma transcrição do momento:

“‘Você não tem ideia do quanto os últimos dias significaram pra mim’, comecei. ‘Conhecer você foi a melhor coisa que já aconteceu comigo.’ Hesitei, sabendo que, se parasse agora, nunca seria capaz de dizer a ninguém. ‘Eu amo você’, sussurrei.”.

Os leitores fãs do seriado How I Met Your Mother devem conhecer esse movimento como “o Mosby”, (E os leitores que não são fãs do seriado deviam tomar vergonha na cara e assisti-lo agora mesmo.) e sabem muito bem como uma mulher normal reage ao ouvir isso. Então força, Savannah, defenda a honra das mulheres!

“…ela interrompeu. ‘Você não entende. Não estou com medo por causa do que você disse. Fiquei assustada porque também quero dizer. Eu amo você, John.'”

Apenas porque o post precisava de um pouco de testosterona depois dessa.

Então o namoro começa. E tudo é lindo e maravilhoso. O casal não se desgruda, abre mão de sua individualidade, e vira o típico modelo de relação que todo mundo deveria odiar. Andam juntos de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo. E de novo.

É, eu sei, só quis enfatizar quanto tempo eles ficam colados. Por que? Porque não há sexo! Meu deus, Nicholas Sparks é uma moça! Como um homem, pior, um soldado, que passa meses no deserto sem uma mulher, pode passar tanto tempo com sua namorada e não fazer nada? E desde quando não fazer nada virou um modelo de cavalheirismo a ser seguido? (Ah é, desde Crepúsculo. Obrigado por nada, Stephenie Meyer!)

Eventualmente o sexo acaba rolando, é verdade, mas nesse ponto já é tarde demais e o estrogênio já deve ter dominado todo o organismo do leitor. Mas espere, há uma esperança. Vejam, é o ataque terrorista do 11 de Setembro! FUCK YEAH, teremos uma guerra! John precisa então escolher entre defender os Estados Unidos contra os terroristas ou ficar com Savannah. E escolhe a guerra! Manda ver, John!

Mundo pós 11 de setembro.

Mundo pós 11 de setembro segundo Nicholas Sparks.

O que acontece é que John fica sentado no deserto por anos, sem matar ninguém, apenas como um artifício de roteiro para ver seu relacionamento com Savannah abalado. Aliás, acho que este é o momento oportuno para revelar que Savannah é uma moça. Ok, nada errado com isso, na verdade. Ocorre que ela também é uma moça com severo retardo mental.

Sabe como hoje em dia é possível conversar via webcam para matar as saudades? Sabe como e-mails chegam imediatamente e são incrivelmente fáceis e convenientes de se abrir em qualquer lugar do mundo? Pois é, Savannah não. Ela só manda cartas! Deus, relacionamentos a distância já são quase impossíveis de dar certo, relacionamentos baseados em cartas então…

Por essas e por outras é absolutamente impossível torcer pelo casal, e descobrir que eles não terminam juntos não causa emoção alguma. ( <- Cuidado, spoiler! Ah, tarde demais? Whoa, que pena, hein?) Quer dizer, causa raiva por ter perdido um valioso tempo lendo um livro tão medíocre.

POPoints: 24%

– Thomas Schulze

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The Warlord Chronicles (1995-1997)

14 03 2010

Bernard Cornwell não é apenas um grande escritor, mas também um dedicado pesquisador, e os seus estudos rendem ótimos frutos. Depois de anos perscrutando todas as versões existentes da lenda de Arthur, mapas de locações por onde ele pode ter passado, e os poucos registros de sua improvável existência, o escritor conseguiu contar a história mais crível de Arthur até hoje. E também uma das mais empolgantes.

Até o lançamento das Crônicas de Arthur, de  Bernard Cornwell, as histórias do Rei Arthur passaram anos e anos sem receber um tratamento digno. Em um mundo em que a magia já não é mais tão fascinante como artifício de roteiro, filmes e escritores tentaram mostrar um Arthur mais realista, mas falharam miseravelmente. Alan Massie chegou a escrever uma versão GLS da lenda, mas felizmente ela não fez muito sucesso.

Mesmo o conto pederasta de Alan Massie consegue ser menos constrangedor que o aborto de filme chamado King Arthur. PORRA, Clive Owen!

O último grande livro sobre Arthur, As Brumas de Avalon, deu muito certo porque, além de ser muito bem escrito por Marion Zimmer Bradley, inovou ao contar a história de Arthur pelos olhos de terceiros. No caso, as mulheres de sua vida. As Crônicas de Arthur faz uso de um artifício semelhante. Só que no lugar de Morgana e cia., quem narra a história é o lanceiro Derfel Cadarn.

Embora Arthur seja o personagem mais importante do livro, por motivos óbvios, é impressionante o modo como Cornwell consegue fazer com que nos importemos também com o até então desconhecido Derfel. Acompanhar sua história, desde sua infância sofrida, passando pelos primeiros dias como lanceiro, o eventual recrutamento por Arthur, e finalmente o retiro em um mosteiro, é bastante empolgante.

Não é difícil se colocar no lugar de Derfel e ficar deslumbrado com as locações e personagens com que ele se depara, já que tudo é descrito magistralmente pelo escritor. São tantos grandes momentos ao longo da obra que seria injusto citar só alguns. Todas as batalhas são empolgantes, desde os duelos homem-a-homem até os épicos embates entre exércitos. (De fato, desde Tolkien ninguém descreve batalhas tão bem quanto Cornwell)

Todos os personagens possuem boas motivações e se comportam de acordo com o que aprendemos a esperar deles. Ou seja, não espere um Merlin bêbado e fracassado como no lamentável filme King Arthur, mas sim um druida sagaz e manipulador, senhor da situação. Não espere uma Guinevere maltrapilha e abandonada como em… Bem, você sabe, King Arthur. Aqui Guinevere é uma mulher deslumbrante capaz de cegar até mesmo o virtuoso Arthur.

Sim, eu odeio intensamente o filme King Arthur. Sério que essa é a Guinevere? PORRA, Keira Knightley!

O único personagem que foi desvirtuado pelo autor e que pode causar alguma polêmica é Lancelot. Cornwell transforma Lancelot em um cavaleiro covarde e ardiloso, que consegue sua fama pilhando anéis de combate do chão e comprando bardos para cantarem sobre suas “vitórias”. Uma abordagem interessante, que serve para mostrar como uma lenda pode nascer da mais pura mentira. O trabalho é tão bem feito que, ao invés de me irritar com Cornwell por destruir meu cavaleiro favorito, eu me felicito com a sua criatividade e ótima escrita.

Mas, por mais sensacional que seja acompanhar a jornada de Derfel, Arthur e cia., o desfecho da saga é um pouco anti-climático, e um ou outro arco não é tão empolgante, como as histórias da Ilha dos Mortos e dos tesouros da Britânia.

Mas que fique claro, para cada página menos empolgante, há cem páginas repletas de homens duelando por suas mulheres e seus deuses, intrigas e conspirações em busca da coroa de um reino sem líder, enfim, tudo que você espera de uma saga épica.

Fica a dica pra uma princesa Guinevere digna pro próximo filme sobre Arthur. BOA, Melanie Laurent! (L)

O mais impressionante é que, mesmo sendo uma obra de qualidade inquestionável, e um dos melhores contos já escritos sobre o Rei Arthur, As Crônicas de Arthur não é o melhor trabalho de Bernard Cornwell.

Então fica a dica para aqueles que tem interesse em obras de aventura: Leiam também os livros de Sharpe e A Busca do Graal, obras-primas de Corwell.

POPoints: 92%

– Thomas Schulze





New Moon (2006)

4 01 2010

A primeira coisa que você precisa saber sobre o livro Lua Nova é que ele é superior a Prepúsculo. A segunda coisa que você precisa saber é que isso não significa nada, e a saga segue absurdamente medíocre.

Para um livro com mais de 400 páginas, a história de Lua Nova é incrivelmente rasa. Basicamente, Bella sofre um pequeno acidente e se corta com papel, sendo então atacada pelo irmão viciado em sangue de Edward, que se sente culpado e rompe o namoro com a garota pra protegê-la. (É, como se isso fizesse sentido numa vila cheia de lobisomens, vampiros caçadores, e só Deus sabe quais outras criaturas infernais.)

Todavia, o término mergulha a menina em uma depressão profunda, potencialmente mais letal que as criaturas supracitadas, dado que Bella constantemente manifesta tendências suicidas. De todo modo, como não existe gente normal em Forks, Bella acaba virando amiga dos lobisomens, mas Edward volta e a história termina como começou, com os dois juntos. Grande surpresa.

Stephanie Meyer agradece à banda Muse por tê-la ajudado em seus bloqueios criativos...

Você deve se lembrar que, no review de Prepúsculo, eu comentei que um dos maiores defeitos de Meyer como escritora era a péssima descrição/desenvolvimento dos personagens. Ela não chegou a melhorar esse aspecto de sua escrita, mas o livro é muito beneficiado pelo fato de praticamente todos os personagens já não precisarem mais de apresentação. Os exaustivos elogios ao físico de Edward, por exemplo, estão muito mais contidos agora.

Não obstante, de Prepúsculo para Lua Nova, parece que perdemos algumas informações essenciais sobre os personagens. Por exemplo, Charlie, o pai de Bella, está absurdamente amoroso, interessado e zeloso. Não que ele fosse negligente e relapso em Prepúsculo, mas agora ele virou o ganhador do troféu “pai do ano”. Perdi alguma coisa?

A amizade de Bella com Jacob também evoluiu de modo muito peculiar entre as obras. Em Prepúsculo, Jacob era quase motivo de piada, um indiozinho sem graça que só falou com Bella para contar lendas sobre vampiros e para, de modo absurdamente constrangedor, pedir a Bella que acabasse o namoro com Edward. Mas Lua Nova começa e, TA-DA, os dois se comportam como amigos de infância. Que diabos?

Claro, a proximidade dos dois personagens era necessária para gerar o triângulo amoroso e tudo mais, mas eu não me importaria se a história da amizade de Bella e Jacob tivesse sido melhor desenvolvida. Provavelmente Meyer não planejava aproximar os dois já em Prepúsculo, então teve que se virar como pôde em Lua Nova. Compreensível, mas ainda assim lamentável.

...mas isso é como se Hitler agradecesse ao Coldplay pelo holocausto. Danke!

Se em Prepúsculo o tema-chave era o modo como o amor de Bella e Edward servia como metáfora para as inseguranças da juventude, o novo mote parece ser a mortalidade e a efemeridade das nossas relações. Interessante, sem dúvida, mesmo que Meyer não explore os temas tão bem como poderia.

Logo no início do livro, Bella revela o seu medo de envelhecer e ficar mais velha que Edward, eternamente preso à sua juventude devido a sua natureza vampiresca. Bom, o lance é que Bella não tem nem um ano de diferença pro amado vampiro. Não é um pouco cedo demais para ela se preocupar com isso? Não é como se Bella estivesse fazendo 40 anos ou algo assim. E mesmo que fizesse, Camelo e Mallu estão aí pra provar que o amor pedófilo é ok.

Ok, não é não.

Sabe o que seria conveniente? Se Edward transformasse a Bella em vampira de uma vez, já que a sua desculpa para não fazê-lo é fraquíssima. Basicamente ele defende, sem qualquer explicação razoável, que uma vez vampiro você perde sua alma e vai pro inferno. Eu realmente  não sei se um ser imortal deveria se preocupar tanto assim com a morte.

Dito isto, há uma coisa muito bem desenvolvida no livro, que é a fossa de Bella. Logo depois que Edward termina o namoro com a guria, sua vida fica vazia, e os dias se arrastam sem quaisquer atrativos. Meyer mostra isso brilhantemente por meio de páginas quase em branco, em que tudo que se lê são os nomes dos meses, um depois do outro. (Ok, talvez Bella tenha sentido o término mais do que deveria, deitando em posição fetal na floresta por horas e coisa e tal, mas isso não tira o brilho de seu sofrimento.)
 
Também são interessantes as frequentes comparações que Lua Nova traça entre sua trama e a de Romeu e Julieta, embora as constantes citações ao clássico da literatura pareçam querer afirmar algo como “Oi, meu nome é Stephenie Meyer e eu li um livro do Shakespeare, o que automaticamente me legitima a escrever um bom romance”.

Bom, não é assim que funciona, Meyer. Você pode comparar Jacob à Paris quantas vezes quiser, mas isso não o transforma num bom personagem. Assim como dizer que o amor de Bella e Edward é impossível não o torna automaticamente belo como o de Romeu e Julieta.

POPoints: 20%

– Thomas Schulze





The Ultimate Hitchhiker’s Guide To The Galaxy (1979-1992)

15 10 2009
42

42

NÃO ENTRE EM PÂNICO!

Abrir um post e se deparar com o melhor livro já escrito pode ser uma experiência chocante demais para o leitor mais impressionável. Que tal então se deparar com um item que fornece, de uma só vez, os cinco melhores livros já escritos?

“The Ultimate Hitchhiker’s to the galaxy”, infelizmente, nunca foi lançado no Brasil, mas você pode encontrar todos os livros dessa coletânea graças ao bom trabalho da editora Sextante, que os vende normalmente a preços amigáveis, entre R$13 e R$30 por volume.

Ao contrário do que parece, isso não foi uma propaganda da Sextante, apenas um apelo para que você faça um favor a si mesmo, visite sua livraria/megastore/loja online favorita, e adquira literatura da melhor qualidade. Para facilitar sua vida, contemple os nomes e capas dos cinco volumes:

Versão nacional. Depois de um peixe babel, a melhor aquisição que você pode fazer.

Versão nacional. Depois de uma dinamite pangaláctica, a melhor aquisição que você pode fazer.

Mas o que torna os livros da série “Guia do Mochileiro das Galáxias” bons a ponto de justificar meu pueril apelo?

Ora, todos sabem que encontrar um livro verdadeiramente inteligente é raro. Tão raro quanto encontrar um livro verdadeiramente engraçado. Surpreendentemente, os livros da série “Guia do Mochileiro das Galáxias” conseguem ser os dois ao mesmo tempo.

Inteligência e humor parecem nortear a mente genial por trás de tais livros, Douglas Noel Adams. Afinal, ele chegou a roteirizar esquetes para o programa “Monty Python’s Flying Circus”. (Se isso não o convence da genialidade de Adams, melhor parar de ler o review por aqui mesmo.)

Até a presente data, o único autor que conseguiu escrever uma trilogia de cinco livros.

Até a presente data, o único autor que conseguiu escrever uma trilogia de cinco livros.

The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy começou como uma série elaborada por Douglas Adams para a rádio inglesa BBC em 1978. O sucesso das aventuras intergaláticas de Arthur Dent e seus amigos Ford, Trillian e Zaphod fez com que o programa de rádio virasse franquia e se transformasse em jogo eletrônico, série de tv, e até mesmo um filme.

Mas o humor sarcástico de Douglas Adams é, sem dúvidas, melhor expresso na forma escrita. Ao longo de seus cinco livros, o autor consegue tecer um perfeito retrato do modo de vida do homem moderno. Poucas são as instituições que passam incólumes pelo seu humor ácido.

Burocratas são ridicularizados através da raça Vogon, (donos da pior poesia do universo) e leis são questionadas quando a Terra é demolida para dar lugar a uma via expressa intergalática. (Tudo porque os humanos não contestaram um aviso inconvenientemente publicado a bilhões de anos-luz de distância da Terra.)

Aprendemos que somos menos espertos que golfinhos, que o robô mais inteligente já feito é também a criatura mais deprimida do universo, e que a resposta para a vida, o universo e tudo mais é 42. (Pena que, infelizmente, não temos uma pergunta para essa resposta.)

Nem mesmo a religião é perdoada, pois Adams não demora a fazer Deus desaparecer numa nuvenzinha de lógica. (Ao constatar que a prova nega a fé, mas que a existência de determinada forma de vida é uma inegável prova de Sua existência.)

O que poucos sabem é que Marvin só ficou deprimido depois de incluir as obras de Stephenie Meyer em seu banco de dados.

O que poucos sabem é que Marvin só ficou deprimido depois de incluir as obras de Stephenie Meyer em seu banco de dados.

Poderia gastar parágrafos e mais parágrafos apenas elencando os momentos de genialidade espalhados pela obra, pois é muito raro uma piada ou crítica social não funcionar. Por exemplo, eu nunca fui muito fã das guerras de krikkit em “A vida, o universo e tudo mais”, mas é impossível penalizar os livros em 1 Popoint sequer, porque eu sei que na página seguinte alguém pode estar voando e ser atingido no cóccix por uma festa.

Enfim, as chances de você ler os livros do Guia do Mochileiro das Galáxias e não gostar não podem sequer ser calculadas por um gerador de improbabilidade infinita. Mas, se esse incrivelmente raro evento acabar ocorrendo, e você desgostar da “trilogia”, saiba que você é, nas palavras de Wowbagger, o infinitamente prolongado:

“Um completo imbecil.”

POPoints: 100%

– Thomas Schulze





Twilight (2005)

29 09 2009
Maniqueísmo in a nutshell: À esquerda, o bem. À direita, o mal.

King e Meyer, ou maniqueísmo in a nutshell: À esquerda, o bem. À direita, o mal.

“Tanto Rowling como Meyer estão falando diretamente com os jovens. A diferença real é que Jo Rowling é uma ótima escritora e Stephenie Meyer não consegue escrever algo que valha. No caso de Stephenie Meyer, é muito claro que ela está escrevendo para toda uma geração de meninas e abrindo uma espécie de porto-seguro entre amor e sexo nos livros. É emocionante, e não é particularmente ameaçador, porque eles não são abertamente sexualizados.”

É assim que o excelente escritor Stephen King define Stephenie Meyer e sua obra Crepúsculo. (Que, mantendo a tradição iniciada no review do filme de mesmo nome, daqui pra frente será chamado de Prepúsculo.)  E se o mestre do terror a considera ruim, quem sou eu para discordar?

Se há uma regra que todo escritor conhece, é que existe uma linha nada tênue que delineia o quanto a paciência do leitor pode ser testada antes que o texto se torne cansativo.

Em Prepúsculo, Stephenie Meyer a ignora completamente.

Imagine que você, escritor, precisa mostrar que seu personagem é belo. Você pode, em, algumas linhas, descrever suas características físicas. O que você não deve fazer é escrever um pseudo conto-erótico, descrevendo, a cada página, o quanto seu personagem é lindo, como seu peito é malhado, como ele parece um Adônis, como seu rosto é perfeito…

É essa, infelizmente, a abordagem escolhida por Stepenie Meyer. Como o livro é uma espécie de diário da protagonista Isabella “Bella” Swan, Meyer, em sua falta de recursos como escritora, achou que seria interessante elogiar o físico de Edward – vampiro e interesse amoroso da ninfeta – a cada página para explicitar o tesão da garota, já que, por não saber desenvolver personagens adequadamente, não encontrou outro modo de justificar a paixão.

Tal tática mostrou-se incrivelmente eficaz ao fazer com que leitoras pré-adolescentes se apaixonassem pelo personagem Edward. Pena que, para os leitores de outros gêneros e faixas etárias, esse enaltecimento da beleza é apenas tedioso e consideravelmente constrangedor.

Tão tedioso quanto o fato da relação entre Edward e Bella nunca se consumar. São criadas situações, há tensão sexual no ar, mas, na hora da verdade, os personagens desistem. E a tensão é reconstruída, testando a paciência do leitor de novo e de novo.

Ainda no departamento do tédio, não ajuda muito o fato de mais da metade do livro consistir em um D.R. entre Bella e Edward. É bem verdade que Meyer foi sagaz ao transformar o amor vampiresco em uma metáfora para as angústias e inseguranças do amor juvenil, mas achar que isso sozinho seria suficiente para encher as aproximadamente 400 páginas do romance foi de uma ingenuidade sem tamanho.

No livro, você pelo menos não precisa ver a cara desses dois, então pode imaginar que o Edward não é um ator de 30 anos de idade, e que a Bella não parece a Gadget do desenho "Chip and Dale Rescue Rangers."

No livro, você pelo menos não precisa ver a cara desses dois, então pode imaginar que o Edward não é um ator de 30 anos de idade, e que a Bella não parece a Gadget do desenho "Chip and Dale Rescue Rangers."

Curiosamente, é quando Meyer se distancia do departamento romântico que revela seus maiores pontos fracos como escritora. O desenvolvimento dos personagens é pífio e ilógico. Por exemplo, por mais que Bella ache Edward lindo, nos primeiros dias de aula ela se aproxima bastante do prestativo e simpático Mike, que a ajuda a se enturmar com a turma de sua nova escola. Bella chega a descreve-lo como boa pinta (aparentemente não existem homens feios na cidade de Forks). Entretanto, ela, sem qualquer explicação racional, acaba se apaixonando por um garoto que, embora seja… hmmm, lindo, (Desculpe, Meyer não me forneceu outra palavra para descrever Edward.) sequer lhe dirige a palavra. E ainda parece a evitar nos corredores. E é odiado por quase todo o colégio. Ou seja, exerce o comportamento típico de um sociopata, exatamente o que humanos em geral tendem a evitar em suas fantasias sexuais.

Mas quem dera apenas o desenvolvimento de personagens fosse ruim. O desenvolvimento da mitologia no universo de Crepúsculo consegue ser ainda pior. A cada decisão ruim (vampiros viciados em baseball) segue-se uma ainda pior (vampiros que brilham como diamantes quando expostos à luz do sol.)

Não precisa procurar longe para encontrar literatura vampiresca de qualidade. André Vianco, autor nacional, tem uma boa quantidade de livros em que desenvolve a mitologia dos vampiros de modo digno e empolgante. Bento, acima, é o melhor deles.

Não precisa procurar longe para encontrar literatura vampiresca de qualidade. André Vianco, autor nacional, tem uma boa quantidade de livros em que desenvolve a mitologia dos vampiros de modo digno e empolgante. Bento, acima, é o melhor deles.

Aliás, é impressionante o modo como Bella, em poucas semanas vivendo em Forks, consegue desmscarar a existência dos vampiros, coisa que nenhum outro habitante da cidade tentou fazer. Talvez sua casa fosse a única com aceso à internet? (Sim, Bella suspeita de Edward depois de uma busca no Google. Uau.)

O livro ainda flerta com a ação nas últimas cinquenta páginas, mas já é tarde demais, e tudo soa forçado e acaba sendo mal resolvido. Um vilão sem carisma e sem motivos críveis para perseguir Bella aparece, é derrotado sem maiores explicações, e todos seguem felizes. Exceto o leitor que gostaria de obter literatura de qualidade.

POPoints: 12%

– Thomas Schulze